Por Camila Betoni
Mestrado em Sociologia Política (UFSC, 2014)
Graduação em Ciências Sociais (UFSC, 2011)
O racismo consiste na atribuição de uma relação direta entre
características biológicas e qualidades morais, intelectuais ou
comportamentais, implicando sempre em uma hierarquização que supõem a
existência de raças humanas superiores e inferiores. Fatores como a cor da pele
ou o formato do crânio são relacionados a uma série de qualidades aleatórias,
como a inteligência ou a capacidade de comando. Discursos racistas
historicamente têm servido para legitimar relações de dominação, naturalizando
desigualdades de todos os tipos e justificando atrocidades e genocídios.
O racismo e as teorias racistas não surgiram do nada, elas
possuem uma história própria. Os primeiros discursos racistas derivam de uma
visão teológica, são baseados na leitura de uma série de episódios bíblicos,
como aquele no qual Noé amaldiçoa seu único filho negro, afirmando que seus
descendentes seriam escravizados pelos descendentes de seus irmãos. Essas
interpretações serviram para justificar e naturalizar relações de exploração,
como a escravização do povo africano pelos europeus. Já no século XVIII surgem
as primeiras teorias racistas de cunho científico. Da mesma forma como já fazia
com as plantas e os animais, a ciência passa a classificar a diversidade humana
e, para tal, usa como critério central a pigmentação da pele. O problema
central dessa classificação é que ela conecta a essas características físicas
atributos morais e comportamentais depreciativos ou valorativos, a depender de
que “raça” se está tratando.
Carl Von Linné, naturalista sueco, foi um dos primeiros a
sistematizar essa classificação racista. Ele divide os humanos em quatro raças:
a asiática, de pele amarela e caráter melancólico; a americana, de pele morena
e comportamento colérico; a africana, negra e preguiçosa; e a europeia, branca,
engenhosa e inventiva. Esse tipo de teoria racista, que junta adeptos por
décadas a fio, utilizou-se da sua autoridade científica para justificar o
tratamento de populações não-europeias como inferiores, indignas de respeito e
incapazes de governar a si mesmas, legitimando as empreitadas colonialistas sob
a Ásia, a África e as Américas. Obviamente, o desenvolvimento da ciência foi
completamente incapaz de provar qualquer tipo de ligação entre as quantidades
de melanina de um ser humano e sua personalidade/capacidade intelectual. No
entanto, elementos dessa hierarquização seguiram intactos nos imaginários
coletivos e se expressam até os dias de hoje.
Racismo no Brasil
O Brasil é um país marcado pelo racismo como sistema, uma
forma de organização social que privilegia um grupo em detrimento de outro. O
genocídio dos povos indígenas e o sequestro, escravização e desumanização dos
africanos – e seus descendentes nascidos aqui – ocupam boa parte da história do
país. São fatos que deixaram consequências profundas tanto na forma coletiva de
pensar, quanto nas condições materiais dos descendentes desses povos. Apesar de
negros e pardos constituírem a maioria da população, sua presença é minoritária
nas classes sociais mais abastadas, nos espaços acadêmicos, nos postos de
chefia e nas profissões bem remuneradas.
Nas ações do aparato repressivo, entretanto, a população
negra se evidencia, constituindo-se como maioria entre as vítimas fatais da
violência policial. A perversidade do racismo brasileiro foi suavizada durante
anos através da ideia de “democracia racial”, nascida nas Ciências Sociais, com
destaque para a contribuição de Gilberto Freyre, autor de Casa Grande e Senzala
(1933).
A ausência de um regime de segregação institucional – tal
como ocorrera nos EUA e na África do Sul, através do apartheid – foi subterfúgio
para amenizar a força do racismo no Brasil. O mito da democracia racial
brasileira fez com que o país postergasse a adoção de medidas de reparação – a
exemplo de ações afirmativas, já há muito consolidadas nos EUA – e de combate
ativo a ideologia racista – tal como a adoção de uma perspectiva
multiculturalista no seu sistema educacional.
Bibliografia:
MUNANGA, Kabengele. Uma abordagem conceitual das noções de
raça, racismo, identidade e etnia. Palestra proferida no 3o Seminário Nacional
de Relações Raciais e Educação – PENESD-RJ, 05/11/03
Arquivado em: Sociologia
fonte : infoescola
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