Por Camila Betoni
Mestrado em Sociologia Política (UFSC, 2014)
Graduação em Ciências Sociais (UFSC, 2011)
Inclusão social é um conceito usado de forma bastante
genérica, tanto nos livros quanto nos discursos políticos. Para entender o que
significa esse termo, é preciso compreender antes seu oposto, a exclusão
social. Nos anos 1970, a Europa sofria com as consequências de uma grande crise
econômica, o que causou o empobrecimento de uma parte de sua população. Naquele
momento, a França – que antes havia alcançado um alto patamar de qualidade de
vida com emprego para praticamente toda a população – assiste a exclusão de
algumas categorias do mercado de trabalho. Nessas categorias estavam, por
exemplo, idosos, deficientes físicos e imigrantes. É nesse contexto que se usa
pela primeira vez o termo “exclusão social”, para designar setores que foram
momentaneamente excluídos de uma sociedade que já havia superado a pobreza. A
expressão “inclusão social” emerge aí para designar as políticas
assistencialistas voltadas especificamente para esse público.
Nos anos 1990, organismos internacionais recuperam esse
conceito, dando a ele um sentido mais amplo. Exclusão social passa a significar
o processo de privação do acesso aos direitos sociais como um todo – direitos
políticos, a saúde, a educação, o emprego e a educação, por exemplo. O mercado
de trabalho mudou muito nesse período e o acesso a empregos estáveis passou a
ser mais difícil, levando muitos grupos sociais ao desemprego ou a ocupação de
trabalhos precários (temporários, informais ou com baixos salários). Esse
movimento de exclusão do trabalho, que afetou especialmente os jovens e as
minorias étnicas, desencadeia a exclusão social mais ampla. Do ponto de vista
psicológico, a exclusão social deixa o indivíduo vulnerável, com um sentimento
de inutilidade social que pode fragilizar seus laços sociais e, as vezes,
desencadear situações graves (como a depressão e a dependência química).
O processo que faz com que uma pessoa seja excluída
socialmente é cumulativo. Ele acontece através de uma cadeia de privações,
incluindo origens familiares pobres, nível de escolarização baixa, alimentação
deficiente, pouco acesso a saúde, condições de trabalho precárias, falta de
moradia, dificuldade de acesso aos serviços públicos, exposição a violência,
etc. Entretanto, a exclusão não acontece somente devido a situação
socioeconômica do sujeito. Condições de gênero, etnia, deficiência física ou
intelectual ou a falta de conhecimentos específicos (como os de informática)
também podem gerar uma situação de exclusão social, quando o indivíduo não
consegue ter acesso aos direitos básicos que deveriam estar a disposição de
todos.
Muitas vezes, a inclusão social é colocada como a meta
oficial das instituições educacionais. A escola deve garantir que os
indivíduos, independentemente de suas condições sociais ou biológicas, tenham a
chance de se inserir não só no mercado de trabalho, mas na sociedade como um
todo. Isso é, que estejam aptos de acessar também os bens culturais e os
direitos políticos. Do ponto de vista sociológico, a ideia de inclusão social
remete as noções que Émile Durkheim tinha da educação e sua função de integrar
harmoniosamente o indivíduo na sociedade, evitando os conflitos e o isolamento.
Algumas políticas públicas, como a educação de jovens e adultos e a
escolarização da população carcerária, buscam claramente esse objetivo. Há, no
entanto, uma perspectiva crítica que afirma que a ideia de inclusão social é
mobilizada de forma a desviar o olhar de problemas estruturais, como a
desigualdade social e a pobreza, que seriam as grandes causas de exclusão de
amplos setores da sociedade. A inclusão em si só poderia ser feita em países
desenvolvidos, onde alguns direitos existem mesmo que indivíduos sejam
excluídos deles. Em países periféricos, como o Brasil, esses direitos básicos
nunca chegaram a ser amplamente realizados.
Bibliografia:
TEIXEIRA, Cristina. Educação e inclusão social? Os limites
do debate sobre o papel da escola na sociedade contemporânea. Anais do XII
Congresso Brasileiro de Sociologia, 2005.
Arquivado em: Sociedade, Sociologia
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