Por Camila Betoni
Mestrado em Sociologia Política (UFSC, 2014)
Graduação em Ciências Sociais (UFSC, 2011)
No início do século XIX, a Europa vivia um momento de
transição para a modernidade, tornando-se cada vez mais urbana e industrial. É
nesse contexto que nasce a corrente filosófica do positivismo, formulada pelo
francês Auguste Comte.
Ainda que a ciência, a indústria e o capitalismo ganhassem
cada vez mais espaço, seria equivocado pensar que as ligações com o antigo
regime estavam completamente rompidas. Apesar das reformas políticas e
econômicas, no campo das ideias o iluminismo ainda não era hegemônico e a
Igreja continuava detendo imenso poder em definir o entendimento dos homens
sobre o mundo. Comte vivia em Paris e, portanto, observava essas transformações
desde de um ponto de vista privilegiado. Enquanto a maioria dos filósofos se
empenhava em colaborar com a reformulação das instituições modernas, Comte
estava convencido de que antes disso era necessária uma completa reforma
intelectual dos homens, que fosse capaz de imputá-los uma nova forma de pensar
condizente com o progresso científico. A essa nova forma de pensar, Comte deu o
nome de positivismo.
Em 1830, Comte publica o Curso de Filosofia Positiva.
Segundo ele, a visão positiva era aquela buscava explicar os fenômenos –
naturais ou humanos – através de sua observação e da elaboração das leis
imutáveis que os regiam. Para Comte, a perspectiva positivista vinha se
estabelecendo em diferentes campos de conhecimento, cada qual em seu próprio
ritmo. A procura de leis imutáveis teria acontecido pela primeira vez na Grécia
Antiga, com a criação da astronomia e da matemática. Alguns séculos depois o
mesmo aconteceria com outras disciplinas, como a biologia e a química.
Em um último estágio, Comte acreditava que era possível
elaborar uma ciência capaz de estudar o comportamento humano coletivo seguindo
os mesmos métodos das ciências naturais. O positivismo funda, então, a
Sociologia, que a princípio recebeu o nome de “física social”. Sua função seria
compreender as condições constantes e imutáveis da sociedade (a ordem) e também
as leis que regiam seu desenvolvimento (o progresso). Não é coincidência que
sejam exatamente estes os termos que aparecem hoje na bandeira do Brasil. Comte
teve grande influência no mundo todo e suas ideias ganharam muitos seguidores
no Brasil, especialmente entre intelectuais e militares, como Benjamin Constant
e Luís Pereira Barreto. A presença dos positivista brasileiros foi notável no
movimento republicano e na elaboração da Constituição de 1891. Nosso sistema de
ensino também teve influências positivista.
Resumidamente, podemos dizer que o pensamento positivista
fundado por Comte estabelece a ciência como o estudo das leis, do que é
invariável, determinado e útil para o progresso humano. O positivismo trazia
consigo um projeto político, que pretendia colocar a gestão da sociedade nas
mãos de sábios e cientistas. Ainda tenha entrado em decadência no século XX, o
positivismo influenciou obras importantes, como as de Émile Durkheim e John
Stuart Mill.
A título de curiosidade, vale lembrar que nos últimos anos de
sua vida Comte se dedicou a elaborar uma religião positivista. Com a razão e o
conhecimento em seu centro, essa religião buscaria a unidade humana em nome da
ordem e do progresso. Comte chegou a elaborar um calendário próprio, onde os
meses ganhariam o nome de pensadores notáveis, que também seriam celebrados em
feriados comemorativas. No Brasil, a Igreja Positivista ainda possui uma sede
no Rio de Janeiro.
Referência bibliográfica:
COMTE, Auguste. Comte, vida e obra; seleção de textos de
José Arthur Giannotti. Coleção Os Pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1978.
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