quarta-feira, 7 de março de 2018

Desigualdade social




Por Luiz Antonio Guerra
Mestre em Sociologia (UnB, 2014)
Graduado em Ciência Política (UnB, 2010)

Apesar de nós brasileiros sermos todos iguais perante a lei, há profundas desigualdades entre os membros da nossa sociedade. Mesmo com avanços importantes em termos de distribuição de renda nas últimas duas décadas, o Brasil continua tendo uma expressiva concentração de riqueza e segue sendo um dos países mais desiguais do mundo.

Vamos a alguns dados recentes apresentados pela organização Oxfam Brasil que demonstram a condição de extrema desigualdade social em que vivemos, não apenas no Brasil, mas em todo o mundo. Em nível global, apenas oito pessoas detêm o mesmo patrimônio que a metade mais pobre da população mundial. No Brasil, a situação é ainda mais acentuada: apenas seis pessoas possuem a riqueza dos 100 milhões de brasileiros mais pobres. Aqui, os 5% mais ricos detêm a mesma fatia de renda que os demais 95%.

Desigualdades sociais: um fenômeno complexo
Os dados acima se referem à desigualdade econômica: de renda, riqueza, patrimônio. Existem, entretanto, várias outras formas de desigualdades sociais: de gênero, raça, geração, geográfica, acesso a serviços públicos, etc. Não se pode tratar apenas a desigualdade econômica, por exemplo, sem pensá-la relacionada a outras formas de desigualdade, pois as diferentes expressões das desigualdades não se apresentam sempre separadas, mas em muitos casos se reforçam. Portanto, é preferível falar não em desigualdade social, mas sim em desigualdades, no plural.

As desigualdades se dão em vários níveis. É grande a disparidade entre países ricos e pobres; e dentro dos países, entre suas regiões e estados. Em cada estado, existem grandes diferenças entre os municípios, nos quais podemos perceber desigualdades entre o meio urbano e rural. E dentro de cada cidade, temos as áreas nobres e as periferias. Existem ainda outras formas de desigualdade que geram um abismo social entre os mais diversos indivíduos, como a discriminação contra mulheres, negros e indígenas. As desigualdades não podem ser tratadas como um mero problema individual, mas sim como um complexo fenômeno social com profundas raízes históricas.

Estratificação social
Para descrever as desigualdades existentes entre indivíduos e grupos nas sociedades humanas, os cientistas sociais se utilizam do conceito de estratificação social, que se refere a como os membros de uma sociedade se encontram divididos em “camadas” (ou estratos). É a estratificação social que vai determinar o acesso a direitos e recursos, benefícios e recompensas, bem como o modo que se dá a mobilidade de um estrato para o outro. É importante destacar a característica social da estratificação, para que não confundamos as desigualdades sociais com as desigualdades naturais. Os seres humanos são muito diferentes entre si em relação às suas características físicas, tais como sexo, altura, peso, saúde, cor do cabelo, pele, olhos, etc. Entretanto, as diferenças naturais entre os indivíduos não são suficientes para explicar as desigualdades sociais, muito embora possam influenciá-las. Os mecanismos que reproduzem as desigualdades sociais foram criados pela ação humana e variam de sociedade para sociedade, de acordo com os valores culturalmente dominantes e critérios estabelecidos historicamente.

Concluímos, portanto, que a estratificação social de uma sociedade não é natural e as desigualdades institucionalizadas não são inevitáveis. São, antes de qualquer coisa, produtos de escolhas políticas que refletem a desigual distribuição de poder nas sociedades.

Bibliografia:

OXFAM BRASIL. A distância que nos une: um retrato das desigualdades brasileiras. Relatório publicado em 25 de setembro de 2017.

Arquivado em: Sociologia

fonte : infoescola

Contrato social




Por Luiz Antonio Guerra
Mestre em Sociologia (UnB, 2014)
Graduado em Ciência Política (UnB, 2010)

O contratualismo é uma abordagem da ética e filosofia política com base na teoria dos contratos sociais. Assim sendo, são chamados de “contratualistas” os filósofos que buscaram explicar a origem da sociedade e o fundamento do poder político em um contrato social entre os indivíduos (seja ele implícito ou explícito), marcando o fim do estado natural e o início da vida social e política.



Os principais nomes dessa forma de filosofia política são os ingleses Thomas Hobbes e John Locke e o francês Jean Jacques Rousseau, que viveram entre os séculos XVI e XVIII. Chegando a diferentes conclusões, os três contratualistas afirmavam que a origem do Estado e da sociedade está num contrato social: anteriormente, as pessoas teriam vivido em um estado de natureza, mas através de um pacto firmado entre a maioria dos indivíduos de uma comunidade foram estabelecidas as regras de convívio social e instauradas as instituições do poder político.

Para Hobbes, o estado de natureza era um estado de igualdade natural entre os seres humanos, onde, para se impor ou se defender, e na ausência de um Estado ou normas reguladoras, os indivíduos entrariam em um estado generalizado de guerra. Nota-se que essa ideia se opõe à concepção aristotélica de que os seres humanos seriam seres políticos por natureza, predispostos à convivência harmônica em sociedade. Hobbes destaca o conflito inerente à natureza humana e explica que essa tensão seria apenas controlada por meio de um contrato entre as pessoas, permitindo assim o surgimento do Estado e a convivência em sociedade.

Já para Locke e Rousseau, o estado de natureza se diferenciava do estado de guerra hobbesiano. Locke acreditava que esse estágio pré-social era uma situação real e pacífica, caraterizada pela mais perfeita liberdade e igualdade entre os indivíduos, que já seriam dotados de razão e desfrutavam da propriedade privada, considerada por Locke um dos direitos naturais do ser humano. Porém, os inconvenientes do estado de natureza fizeram com que os indivíduos livremente estabelecessem entre si um contrato social que garantisse seus direitos fundamentais, especialmente o da propriedade privada e a proteção da comunidade frente aos perigos internos e externos. Para Rousseau, o ser humano nasceu livre, porém teria encontrado uma série de obstáculos ao exercício de sua liberdade natural. Ao contrário de Locke, Rousseau acreditava que a propriedade privada teria sido um dos principais motivos de degradação daquela situação inicial de liberdade rumo à desigualdade e desarmonia, motivando assim os indivíduos à realização de um pacto social com o objetivo de estabelecer a liberdade civil.

Neo contratualistas
A ideia de um contrato que funda a sociedade manteve sua importância na filosofia política. John Rawls é um exemplo de um influente pensador político do século XX considerado um “neo contratualista”. Na sua teoria da justiça, John Rawls resgata a importância moral conferida por Immanuel Kant para a explicação das motivações dos indivíduos em sociedade e questiona as circunstâncias de desigualdade em que se encontram as diferentes partes do contrato social.

Bibliografia:

BOBBIO, Norberto. Dicionário de Política. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1998.

BUNNIN, Nicholas e YU, Jiyuan. The Blackwell Dictionary of Western Philosophy. Blackwell publishing, 2004.

WEFFORT, Francisco C. (org). Os clássicos da política. Vol. 1. São Paulo: Ed. Ática, 1995. 6ª ed.

Arquivado em: Filosofia, Política, Sociologia

fonte : infoescola

Anomia


Anomia

Por Marcele Juliane Frossard de Araujo
Mestre em Ciências Sociais (PUC-Rio, 2015)
Graduada em Ciências Sociais (UERJ, 2012)

O conceito de anomia foi cunhado pelo sociólogo francês Émile Durkheim e quer dizer: ausência ou desintegração das normas sociais. O conceito surgiu com o objetivo de descrever as patologias sociais da sociedade ocidental moderna, racionalista e individualista. O acelerado processo de urbanização, a falta de solidariedade, as novas formas de organização das relações sociais e a influência da economia na vida dos indivíduos após a Revolução Industrial são objeto de estudo de Durkheim.

O tema central das obras deste autor é a relação entre o indivíduo e a coletividade: o que diferencia uma coleção de indivíduos de uma sociedade? Como se constrói o consenso? O que das ações individuais é determinado pela coletividade? Tentar responder a estas perguntas é o objetivo de muitas de suas obras como “A divisão do trabalho social” e “O suicídio”.

A divisão do trabalho, na forma que aparece nas sociedades complexas, promove a diferenciação entre os indivíduos e rompe o modelo de solidariedade mecânica das sociedades mais simples. Esta divisão é um fenômeno social e é explicada de acordo com a combinação entre o volume, a densidade moral e material da sociedade.

Durkheim desenvolve esta argumentação para apresentar os aspectos positivos da divisão do trabalho, enquanto produtora de solidariedade social. Porém, existe outro resultado, que é considerado negativo pelo autor, o conjunto de regras sem unidade, de relações não regulamentadas, a desintegração social e a debilidade dos laços que prendem o indivíduo ao grupo, a anomia.

Os contratos legitimados pelo sistema jurídico não são suficientes para explicar o que torna uma sociedade diferente de uma coleção de indivíduos. Eles exprimem um consenso que não pode se tornar válido apenas pela coerção, a violência e a força, pois a solidariedade seria singularmente precária. Logo, “o que constitui o livre consentimento?” (DURKHEIM, 2010, p. 401).

Para Durkheim a própria liberdade é produto de uma regulamentação: “O que constitui a liberdade é a subordinação das forças exteriores às forças sociais”. (Idem., p. 406). Os homens só abandonam seu estado de natureza, ou seja, seu estado selvagem, “criando outro mundo, do qual a domina (a natureza), e esse mundo é a sociedade” (Idem.). Dessa forma Durkheim conclui que a força da sociedade, da união dos indivíduos por laços de solidariedade, é o que caracteriza o homem fora do seu estado de natureza, o que o difere do animal.

Em sua obra “O Sucídio” o autor realizou denso estudo estatístico sobre as diferentes formas de suicídio, categorizando-os em suicídio egoísta, altruísta e anômico. Este último era o que mais lhe interessava porque era o mais frequente nas sociedades modernas e apresentava forte correlação com ciclos econômicos e com o número de divórcios. O que o levou a concluir que regras sociais mais frouxas, numa sociedade competitiva, aumentava o índice de suicídios.

A organização dos homens em uma mesma sociedade, regulada pelas mesmas leis é o que permite a mediação de conflitos individuais e sociais: “A única força capaz de servir de moderadora para o egoísmo individual é a do grupo; a única que pode servir de moderadora para o egoísmo dos grupos é a de outro grupo que os englobe” (DURKHEIM, 2010, P. 428).

A anomia é definida pelo autor como a ausência dessa solidariedade, o desrespeito às regras comuns, às tradições e práticas.

Referências Bibliográficas:

ARON, R. As etapas do pensamento sociológico. Martins Fontes, São Paulo, 2000.

DURKHEIM, E. Da divisão do trabalho social. Martins Fontes, São Paulo, 2010.

Arquivado em: Sociologia

fonte : infoescola

Racismo




Por Camila Betoni
Mestrado em Sociologia Política (UFSC, 2014)
Graduação em Ciências Sociais (UFSC, 2011)

O racismo consiste na atribuição de uma relação direta entre características biológicas e qualidades morais, intelectuais ou comportamentais, implicando sempre em uma hierarquização que supõem a existência de raças humanas superiores e inferiores. Fatores como a cor da pele ou o formato do crânio são relacionados a uma série de qualidades aleatórias, como a inteligência ou a capacidade de comando. Discursos racistas historicamente têm servido para legitimar relações de dominação, naturalizando desigualdades de todos os tipos e justificando atrocidades e genocídios.

O racismo e as teorias racistas não surgiram do nada, elas possuem uma história própria. Os primeiros discursos racistas derivam de uma visão teológica, são baseados na leitura de uma série de episódios bíblicos, como aquele no qual Noé amaldiçoa seu único filho negro, afirmando que seus descendentes seriam escravizados pelos descendentes de seus irmãos. Essas interpretações serviram para justificar e naturalizar relações de exploração, como a escravização do povo africano pelos europeus. Já no século XVIII surgem as primeiras teorias racistas de cunho científico. Da mesma forma como já fazia com as plantas e os animais, a ciência passa a classificar a diversidade humana e, para tal, usa como critério central a pigmentação da pele. O problema central dessa classificação é que ela conecta a essas características físicas atributos morais e comportamentais depreciativos ou valorativos, a depender de que “raça” se está tratando.

Carl Von Linné, naturalista sueco, foi um dos primeiros a sistematizar essa classificação racista. Ele divide os humanos em quatro raças: a asiática, de pele amarela e caráter melancólico; a americana, de pele morena e comportamento colérico; a africana, negra e preguiçosa; e a europeia, branca, engenhosa e inventiva. Esse tipo de teoria racista, que junta adeptos por décadas a fio, utilizou-se da sua autoridade científica para justificar o tratamento de populações não-europeias como inferiores, indignas de respeito e incapazes de governar a si mesmas, legitimando as empreitadas colonialistas sob a Ásia, a África e as Américas. Obviamente, o desenvolvimento da ciência foi completamente incapaz de provar qualquer tipo de ligação entre as quantidades de melanina de um ser humano e sua personalidade/capacidade intelectual. No entanto, elementos dessa hierarquização seguiram intactos nos imaginários coletivos e se expressam até os dias de hoje.

Racismo no Brasil
O Brasil é um país marcado pelo racismo como sistema, uma forma de organização social que privilegia um grupo em detrimento de outro. O genocídio dos povos indígenas e o sequestro, escravização e desumanização dos africanos – e seus descendentes nascidos aqui – ocupam boa parte da história do país. São fatos que deixaram consequências profundas tanto na forma coletiva de pensar, quanto nas condições materiais dos descendentes desses povos. Apesar de negros e pardos constituírem a maioria da população, sua presença é minoritária nas classes sociais mais abastadas, nos espaços acadêmicos, nos postos de chefia e nas profissões bem remuneradas.

Nas ações do aparato repressivo, entretanto, a população negra se evidencia, constituindo-se como maioria entre as vítimas fatais da violência policial. A perversidade do racismo brasileiro foi suavizada durante anos através da ideia de “democracia racial”, nascida nas Ciências Sociais, com destaque para a contribuição de Gilberto Freyre, autor de Casa Grande e Senzala (1933).

A ausência de um regime de segregação institucional – tal como ocorrera nos EUA e na África do Sul, através do apartheid – foi subterfúgio para amenizar a força do racismo no Brasil. O mito da democracia racial brasileira fez com que o país postergasse a adoção de medidas de reparação – a exemplo de ações afirmativas, já há muito consolidadas nos EUA – e de combate ativo a ideologia racista – tal como a adoção de uma perspectiva multiculturalista no seu sistema educacional.

Bibliografia:
MUNANGA, Kabengele. Uma abordagem conceitual das noções de raça, racismo, identidade e etnia. Palestra proferida no 3o Seminário Nacional de Relações Raciais e Educação – PENESD-RJ, 05/11/03

Arquivado em: Sociologia
fonte : infoescola

Status social




Por Marcele Juliane Frossard de Araujo
Mestre em Ciências Sociais (PUC-Rio, 2015)
Graduada em Ciências Sociais (UERJ, 2012)

Status social é um conceito sociológico que busca posicionar na estrutura social de uma determinada sociedade um indivíduo ou família. O conceito de status social é normalmente associado ao sociólogo Max Weber, que o criou para analisar prestígio, poder e pertencimento social, aspectos que o conceito de classe de Karl Marx não aborda.

Segundo Max Weber neste conceito a sociedade estamental é divida em grupos de status, que são determinados pela honra de seus integrantes, que ditam regras e estilos de vida para os demais pertencentes. Um exemplo desse tipo de sociedade é a sociedade feudal européia. Os diferentes grupos de status respondem, portanto, a uma hierarquia, conhecendo seus direitos e deveres, respeitando acordos e restrições.

Os estudos sobre estratificação social, como os de classe e status social, buscam classificar como os indivíduos se organizam, portanto possuem um caráter classificatório. As sociedades urbanas e industrializadas, devido a sua complexidade, são um obstáculo para a aplicação deste conceito. Ao longo do século XX diferentes estudiosos buscaram compreender a relação entre status social e classe, como Pierre Bourdieu.

A metodologia dos estudos sociais, devido ao seu caráter, buscam determinar a posição de individuos e famílias na estrutura social. Muitas metodologias foram desenvolvidas para obter maior precisão nessas análises, aspectos tais quais grau educacional, bairro de residência, posição hierárquica da profissão, dentre outros. Porém, como é perceptível, o conceito de status social é multidimensional.

Para autores como August B. Hollingshead (1975) o status social pode ser determinado de acordo com a combinação de quatro fatores: grau educacional, ocupação, sexo e estado civil. Esses quatro fatores são fundamentais porque: o grau educacional varia muito pouco durante a fase adulta e indica o nível de conhecimento formal adquirido por um indívuo, o que provavelmente determina seus gostos, hábitos, e outras características. Muitas ocupações de grande prestígio social exigem um alto nível de formação educacional, elas podem até variar ao longo da vida, mas normalmente estão atreladas ao nível educacional do indivíduo. A partir da ocupação profissional de uma pessoa é possível mensurar o grau de poder que ela possui. O sexo determina o nível de poder que o indvíduo pode ter, principalmente se considerarmos as desvantagens que as mulheres enfrentam no mercado de trabalho e em outros espaços da sociedade ocidental. Por fim, o estado civil determina o status individual no sistema familiar.

Aspectos simbólicos influenciam o status social, ou seja, ele não depende apenas do poder econômico, mas de outras caracteríticas, como educação formal. Por exemplo, um jogador de futebol, mesmo que seja muito rico, sempre é reconhecido por ser jogador de futebol. Caso ele se torne político, ele adquire um novo status social, porque seu poder social aumenta. O poder de influência, o poder de ditar regras, o poder de acessar outros estamos sociais e etc. Da mesma forma, uma professora universitária quase nunca é classificada devido à sua renda, mas ao seu prestígio no meio em que trabalha.

Por fim, status social é um conceito, uma categoria abstrata, que indica a posição de um individuo ou família na estratificação social de uma determinada sociedade. Comumente ele é apresentado em oposição ao conceito de classe. Uma forma atual de se mensurar o status social se relaciona com o poder de consumo e os objetos deste consumo.

Referências bibliográficas:

BOURDIEU, P. Capital simbólico e classes sociais. Novos Estudos, julho de 2013.

HOLLINGSHEAD, A. B. Four Factor Index of Social Status (Non-published work, 1975). Yale Journal of Sociology Volume 8 Fall, 2011.

WEBER, Max. Ensaios de Sociologia. Rio de Janeiro, LTC, 2011.

Arquivado em: Sociologia

fonte : infoescola

Democracia Racial




Por Gabriella Porto
A democracia racial é um termo usado por algumas pessoas para descrever relações raciais no Brasil. O termo denota a crença de alguns estudiosos que o Brasil escapou do racismo e da discriminação racial. Estudiosos afirmam que os brasileiros não vêem uns aos outros através da lente da raça e não abrigam o preconceito racial em relação um ao outro. Por isso, enquanto a mobilidade social dos brasileiros pode ser limitada por vários fatores, gênero e classe incluído, a discriminação racial é considerada irrelevante (dentro dos limites do conceito da democracia racial).

O conceito foi apresentado inicialmente pelo sociólogo Gilberto Freyre, na sua obra Casa-Grande & Senzala, publicado em 1933. Embora Freyre jamais tenha usado este termo nesse seu trabalho, ele passou a adotá-lo em publicações posteriores, e suas teorias abriram o caminho para outros estudiosos popularizarem a ideia.

Freyre argumentou que vários fatores, incluindo as relações estreitas entre senhores e escravos antes da emancipação legal dada pela Lei Áurea em 1888, e o caráter supostamente benigno do imperialismo Português impediu o surgimento de categorias raciais rígidas. Freyre também argumentou que a miscigenação continuada entre as três raças (ameríndios, os descendentes de escravos africanos e brancos) levaria a uma "meta-raça". A teoria se tornou uma fonte de orgulho nacional para o Brasil, que se contrastou favoravelmente com outros países, como os Estados Unidos, que enfrentava divisões raciais que levaram a significantes atos de violência. Com o tempo, a democracia racial se tornaria amplamente aceita entre os brasileiros de todas as faixas e entre muitos acadêmicos estrangeiros. Pesquisadores negros nos Estados Unidos costumavam fazer comparações desfavoráveis entre seu país e o Brasil durante a década de 1960.

Nas últimas quatro décadas, principalmente a partir da publicação em 1976 de Preto no Branco, escrito por Thomas Skidmore, um estudo revisionista das relações raciais brasileiras, os estudiosos começaram a criticar a noção de que o Brasil seja de verdade uma democracia racial. Skidmore argumenta que a elite predominantemente branca na sociedade brasileira promoveu a democracia racial para obscurecer formas de opressão racial.

Os críticos que se opõem à ideia da democracia racial, afirmando que ela seja um mito, frequentemente usam como base a alegação genérica de que não seria possível definir com exatidão à qual raça uma pessoa pertença realmente, visto que os próprios indivíduos não são capazes de se definir. Muitos pesquisadores relatam estudos em que demonstram a discriminação generalizada nos campos do emprego, educação e política eleitoral. O uso aparentemente paradoxal da democracia racial para obscurecer a realidade do racismo tem sido referido pelo estudioso Florestan Fernandes como o "preconceito de não ter preconceitos". Ou seja, porque o Estado assume a ausência de preconceito racial, ele não consegue fazer cumprir o que existem poucas leis para combater a discriminação racial, pois acredita que tais esforços sejam desnecessários.

Michael Hanchard, cientista político da Universidade John Hopkins, argumenta que a ideologia da democracia racial, muitas vezes promovida por aparatos estatais, impede uma ação efetiva de combate à discriminação racial, levando as pessoas a atribuírem a discriminação a outras formas de opressão e permitindo que funcionários do governo acusados neguem a sua existência, mesmo que apenas inicialmente.

Fontes:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Democracia_racial_no_Brasil
http://www.imil.org.br/artigos/a-importancia-de-gilberto-freyre-para-a-construcao-da-nacao-brasileira-parte-ii/

Arquivado em: Sociologia

fonte : infoescola

Ditadura do proletariado




Por Luiz Antonio Guerra
Mestre em Sociologia (UnB, 2014)
Graduado em Ciência Política (UnB, 2010)
O termo “ditadura do proletariado” foi usado por Karl Marx e Friederich Engels – e posteriormente por Vladimir Lenin – para descrever o Estado da classe trabalhadora durante a transição ao comunismo, após a derrubada do estado burguês.

Para Marx, a existência das classes sociais estava ligada a fases particulares do desenvolvimento de produção. A luta de classes levaria necessariamente à ditadura do proletariado que, por sua vez, constituía apenas uma etapa rumo à abolição de todas as classes e à sociedade sem classes – o comunismo. A ditadura do proletariado seria a etapa transitória posterior à derrubada do Estado burguês, quando se faria necessário a inversão da relação de opressão, de maneira a impor a hegemonia da classe operária sobre a burguesia. A ditadura do proletariado, na concepção de Marx, não é apenas uma forma de regime (ditatorial) na qual o proletariado exerceria o tipo de hegemonia até então exercido pela burguesia, mas também era visto como uma forma de governo, no qual a classe operária realmente governaria e tomaria para si muitas das tarefas até então executadas pelo Estado. A ditadura do proletariado tinha a função de desmontar o Estado burguês, abolindo a burocracia, a polícia e o exército permanente. Para cumprir seus objetivos, era preciso que o proletariado se utilizasse da violência armada durante todo o período. Portanto, a ditadura do proletariado seria um período transitório que desapareceria quando se eliminasse também a razão da opressão, ou seja, a dominação da burguesia.

Marx usou a expressão pela primeira vez no seu livro “As lutas de classe na França” de 1850 e a retomou na “Crítica do programa de Gotha” de 1875. Porém, nunca detalhou a forma política peculiar que a ditadura do proletariado deveria assumir. Inspirado na obra de Marx, coube a Vladimir Lenin desenvolver a ideia de ditadura do proletariado. O pensador e revolucionário russo destacou a importância da ação revolucionária do proletariado ser dirigida por um partido de vanguarda coesamente organizado.

Após a derrubada do Estado burguês, caberia ao proletariado organizado expropriar todo o capital da burguesia e centralizar os instrumentos de produção nas mãos do Estado, abolindo a propriedade de terra e o direito à herança. Parte desse programa fez parte dos desdobramentos de revoluções socialistas no século XX, como por exemplo, na União Soviética e em Cuba. O “socialismo real” acabou perdendo apoio na medida em que o novo Estado criado se tornou mais forte ao invés de desaparecer e escapou do controle da classe operária, se transformando na dominação de uma vanguarda do partido. Esse tipo de sociedade não se aproxima à sociedade comunista sem classe descrita por Marx e Engels no Manifesto Comunista.

A ideia da ditadura do proletariado foi bastante questionada, por um lado por anarquistas (principalmente Bakhunin na Primeira Internacional) por contribuir para perpetuar um estado autoritário e uma elite dominante burocrática, e por outro lado por socialistas democratas e reformistas, que acreditavam ser possível a transição ao socialismo sem a necessidade da tomada revolucionária e violenta do Estado.

Bibliografia:

BOTTOMORE, Tom (editor). Dicionário do pensamento marxista. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.

MARX, Karl e ENGELS, Friederich. Manifesto do Partido Comunista. São Paulo: Martin Claret, 2014.

Arquivado em: Sociologia, União Soviética
fonte : infoescola

Pensadores da sociologia




Por Marcele Juliane Frossard de Araujo
Mestre em Ciências Sociais (PUC-Rio, 2015)
Graduada em Ciências Sociais (UERJ, 2012)

Os principais pensadores da sociologia são Karl Marx, Émile Durkheim e Max Weber. Porém antes de ser nomeada como sociologia, por Augusto Comte, alguns pensadores anteriores desenvolveram estudos que influenciaram a fundação desta ciência. São eles: Rousseau, Montesquieu, Alexis de Tocqueville, Auguste Comte, Gabriel Tarde, Vilfredo Pareto. Todos eles buscavam compreender, de alguma forma, a relação entre política, economia e sociedade. Cada um deles desenvolveu teorias sobre o que compõe uma sociedade, quais os poderes que a organiza, qual o sentido da coerção, dentre outros temas.

Rosseau e Montesquieu são reconhecidos pela influência de seus escritos para a Revolução Francesa e para as teorias sobre a formação dos Estados. Ambos os autores são contratualistas, ou seja, acreditam que os homens em algum momento, através de um contrato, delegaram a outros o poder de representação. Assim como eles, na tradição inglesa Hobbes e Locke também foram contratualistas e exercem forte influência sobre a sociologia.

Alexis de Tocqueville também era francês e sofria as consequências da Revolução Francesa. Aristocrata, ele viu os valores de uma classe ser questionado pela burguesia e isso o motivou a viajar para a nova nação em construção, os Estados Unidos da América. Sua principal obra é “A democracia na América”, em que o autor analisa os valores dessa nova sociedade, seu funcionamento político, a influência dos jornais, a vontade de associação, dentre outros.

Karl Marx, de origem alemã, é muito conhecido por suas obras que versam sobre economia, política, direito e trabalho. Uma de suas principais contribuições é a teoria do valor trabalho, em que analisa o que é a mais valia. Seus trabalhos influenciam o campo das ciências sociais até os dias atuais e são responsáveis por uma vasta bibliografia que trata dessas relações a partir do ponto de vista marxista.

O nome sociologia, portanto, foi cunhado pelo filósofo Auguste Comte. Ao contrário de Marx, Comte era um reformador, a sociologia surge como a ciência que compreende os problemas sociais para buscar soluções que evitem colapsos como a Revolução Francesa. Gabriel Tarde é outro pensador francês que é considerado um dos fundadores da sociologia, seus trabalhos tratavam sobre os aspectos sociais do crime e uma de suas teorias mais famosas é a teoria da imitação.

Pareto, Durkheim e Weber possuem em comum o desejo de fazer ciência. Os três escreveram suas obras no final do século XIX e por isso compreendem o mundo de forma distinta dos autores anteriores. Também é comum aos três o pensamento de que, assim como Comte afirmara algum tempo antes, a sociedade para se manter como um todo precisava de um consenso, todos deveriam crer na coletividade (ARON, 2000, p. 279).

Émile Durkheim buscava compreender quais fatores unem os indivíduos para compor uma sociedade. Seus trabalhos tiveram como principais temas o Direito, a educação, a moral, a religião, o suícidio e o trabalho. Um de seus trabalhos mais importantes é o que demarca a diferença entre a sociologia, a filosofia e a psicologia: As regras do método sociológico. Pareto criticava o trabalho de Durkheim por considerá-lo uma moral científica.

Por fim, Max Weber tem como principais contribuições análises sobre o grau de organização das sociedades modernas, burocráticas e racionalizadas. Mas ao mesmo tempo ele apontava para os limites deste processo, reduzindo as liberdades individuais, a escolha pessoal, a fé.

Referência Bibliográfica:

ARON, R. As etapas do pensamento sociológico. Martins Fontes, 2000.

Arquivado em: Sociologia

fonte : infoescola

Inclusão social




Por Camila Betoni
Mestrado em Sociologia Política (UFSC, 2014)
Graduação em Ciências Sociais (UFSC, 2011)

Inclusão social é um conceito usado de forma bastante genérica, tanto nos livros quanto nos discursos políticos. Para entender o que significa esse termo, é preciso compreender antes seu oposto, a exclusão social. Nos anos 1970, a Europa sofria com as consequências de uma grande crise econômica, o que causou o empobrecimento de uma parte de sua população. Naquele momento, a França – que antes havia alcançado um alto patamar de qualidade de vida com emprego para praticamente toda a população – assiste a exclusão de algumas categorias do mercado de trabalho. Nessas categorias estavam, por exemplo, idosos, deficientes físicos e imigrantes. É nesse contexto que se usa pela primeira vez o termo “exclusão social”, para designar setores que foram momentaneamente excluídos de uma sociedade que já havia superado a pobreza. A expressão “inclusão social” emerge aí para designar as políticas assistencialistas voltadas especificamente para esse público.

Nos anos 1990, organismos internacionais recuperam esse conceito, dando a ele um sentido mais amplo. Exclusão social passa a significar o processo de privação do acesso aos direitos sociais como um todo – direitos políticos, a saúde, a educação, o emprego e a educação, por exemplo. O mercado de trabalho mudou muito nesse período e o acesso a empregos estáveis passou a ser mais difícil, levando muitos grupos sociais ao desemprego ou a ocupação de trabalhos precários (temporários, informais ou com baixos salários). Esse movimento de exclusão do trabalho, que afetou especialmente os jovens e as minorias étnicas, desencadeia a exclusão social mais ampla. Do ponto de vista psicológico, a exclusão social deixa o indivíduo vulnerável, com um sentimento de inutilidade social que pode fragilizar seus laços sociais e, as vezes, desencadear situações graves (como a depressão e a dependência química).

O processo que faz com que uma pessoa seja excluída socialmente é cumulativo. Ele acontece através de uma cadeia de privações, incluindo origens familiares pobres, nível de escolarização baixa, alimentação deficiente, pouco acesso a saúde, condições de trabalho precárias, falta de moradia, dificuldade de acesso aos serviços públicos, exposição a violência, etc. Entretanto, a exclusão não acontece somente devido a situação socioeconômica do sujeito. Condições de gênero, etnia, deficiência física ou intelectual ou a falta de conhecimentos específicos (como os de informática) também podem gerar uma situação de exclusão social, quando o indivíduo não consegue ter acesso aos direitos básicos que deveriam estar a disposição de todos.

Muitas vezes, a inclusão social é colocada como a meta oficial das instituições educacionais. A escola deve garantir que os indivíduos, independentemente de suas condições sociais ou biológicas, tenham a chance de se inserir não só no mercado de trabalho, mas na sociedade como um todo. Isso é, que estejam aptos de acessar também os bens culturais e os direitos políticos. Do ponto de vista sociológico, a ideia de inclusão social remete as noções que Émile Durkheim tinha da educação e sua função de integrar harmoniosamente o indivíduo na sociedade, evitando os conflitos e o isolamento. Algumas políticas públicas, como a educação de jovens e adultos e a escolarização da população carcerária, buscam claramente esse objetivo. Há, no entanto, uma perspectiva crítica que afirma que a ideia de inclusão social é mobilizada de forma a desviar o olhar de problemas estruturais, como a desigualdade social e a pobreza, que seriam as grandes causas de exclusão de amplos setores da sociedade. A inclusão em si só poderia ser feita em países desenvolvidos, onde alguns direitos existem mesmo que indivíduos sejam excluídos deles. Em países periféricos, como o Brasil, esses direitos básicos nunca chegaram a ser amplamente realizados.

Bibliografia:
TEIXEIRA, Cristina. Educação e inclusão social? Os limites do debate sobre o papel da escola na sociedade contemporânea. Anais do XII Congresso Brasileiro de Sociologia, 2005.

Arquivado em: Sociedade, Sociologia

Superestrutura e Infraestrutura




Por Luiz Antonio Guerra
Mestre em Sociologia (UnB, 2014)
Graduado em Ciência Política (UnB, 2010)

A metáfora da base e da superestrutura (ou infraestrutura e superestrutura) é de fundamental importância para o método do materialismo histórico do marxismo. Nas suas obras, Karl Marx e Friederich Engels recorreram à metáfora do edifício para explicar a sociedade. A sua base ou infraestrutura seria o conjunto das relações de produção, ou seja, as relações de classes estabelecidas em determinada sociedade. Sobre esta estrutura econômica se ergueria a superestrutura, que corresponde às formas de consciência social em geral, como a política, a filosofia, a cultura, as ciências, as religiões, as artes, etc. A superestrutura compreende também os modos de pensar, as visões de mundo e demais componentes ideológicos de uma classe. A ideologia é chamada de superestrutura ideológica e o Estado é chamado de superestrutura legal ou política, incluindo aí a polícia, o exército, as leis, os tribunais e a burocracia.

A superestrutura é derivada do conflito de interesses das diferentes classes que fazem parte da base econômica de determinada sociedade. A função da superestrutura é manter as relações econômicas que constituem a infraestrutura, reforçando assim os interesses coletivos da classe social dominante. Isto é realizado através da regulamentação, sanções e coerções impostas pela superestrutura política e pela força persuasiva da superestrutura ideológica.

Portanto, podemos concluir que, de acordo com o marxismo, o modo de produção da vida material condiciona o processo da vida social, política e intelectual em geral. Isso equivale dizer que diferentes conjuntos de relações econômicas determinarão a existência de diferentes formas de Estado e consciência social, que serão adequadas para funcionamento daquelas relações econômicas. Logo, quando o desenvolvimento das forças produtivas traz mudanças nas relações de produção, consequentemente a superestrutura será transformada. Ou seja, a superestrutura não é autônoma, não se dá por si mesma, mas tem seu fundamento nas forças produtivas e relações de produção.

Está presente em toda a obra de Marx e Engels a ideia de que a organização social nasce diretamente das relações de produção, as quais, em última instância, constituiriam a base do Estado e do resto da superestrutura das ideias, em toda a história da humanidade. O determinismo econômico é a tese básica do método do materialismo histórico de Marx e Engels. Esta primazia do fator econômico foi um dos principais pontos de debates e críticas em relação ao marxismo.

Entretanto, a distinção entre a infra e a superestrutura, e a determinação da primeira sobre a segunda, não é absoluta. Os cientistas sociais discordam acerca da autonomia da superestrutura e da influência que esta teria de também atuar sobre a estrutura econômica. Muitos teóricos marxistas têm argumentado que as críticas a Marx e Engels provêm de uma leitura superficial das suas obras, pois eles não queriam dizer que a superestrutura é apenas um mero reflexo do modo de produção vigente. A partir desse debate, muitos marxistas no século XX buscaram desenvolver pontos das teorias de Marx e Engels que não ficaram bem explicadas, como o peso dos aspectos superestruturais para o desenvolvimento social.

Bibliografia:

BOTTOMORE, Tom (editor). Dicionário do pensamento marxista. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001

BUNNIN, Nicholas e YU, Jiyuan. The Blackwell Dictionary of Western Philosophy. Blackwell publishing, 2004.

MARX, Karl e ENGELS, Friederich. Ideologia Alemã. São Paulo: Martins Fontes, 1989.

Arquivado em: Filosofia, Sociologia

fonte : infoescola

Ações afirmativas


Ações afirmativas

Por Camila Betoni
Mestrado em Sociologia Política (UFSC, 2014)
Graduação em Ciências Sociais (UFSC, 2011)

Ações afirmativas são medidas que tem por objetivo reverter a histórica situação de desigualdade e discriminação a que estão submetidos indivíduos de grupos específicos. Elas partem do reconhecimento de que alguns grupos sociais – tais como os negros, os indígenas e as mulheres – foram historicamente privados de seus direitos, resultando em uma condição de desigualdade (social, econômica, política ou cultural) acumulada que tende a se perpetuar. São ações públicas ou privadas que procuram reparar os aspectos que dificultam o acesso dessas pessoas as mais diferentes oportunidades. As ações afirmativas podem ser adotadas tanto de forma espontânea, quanto de forma compulsória – isso é, através da elaboração de medidas que as tornam obrigatórias. O fim dessas medidas é sanar uma situação de desigualdade considerada prejudicial para o desenvolvimento da sociedade como um todo.

No Brasil, muitas pessoas ligam esse tema unicamente a política de adoção de cotas raciais nas universidades. Entretanto, podemos citar outros exemplos de ações afirmativas. A criação de delegacias especializadas para o atendimento de mulheres é uma delas. Essa medida parte do reconhecimento de que as mulheres sofrem historicamente de um tipo especial de violência que resulta da sua situação estrutural de desigualdade. A criação das delegacias da mulher não resolve o problema da violência, mas o sana na medida em que parte da consciência de que é preciso uma abordagem específica para esses casos. Em empresas privadas, a reserva de uma parcela dos postos de trabalho para pessoas com deficiências físicas ou intelectuais também não é uma medida que resolve definitivamente a condição de desigualdade desse grupo. Entretanto, ela reconhece a existência do problema e colabora para a inclusão ativa dessas pessoas. Leis que exigem uma quantidade mínima de mulheres na candidatura de cargos públicos, cursinhos voltados unicamente para a população de baixa renda e a distribuição de terras e habitação para grupos vulneráveis também são exemplos de ações afirmativas já adotadas há décadas em alguns países.

O interessante dessas ações é que elas partem da necessidade de dar a noção de justiça social uma nova interpretação. Segundo uma abordagem universalista e baseada no princípio da meritocracia, ser justo é tratar todos de forma igual. No entanto, em uma sociedade permeada por uma série de desigualdades, resultantes de um processo histórico específico, a adoção desse princípio acaba apenas reproduzindo as desigualdades já existentes. As ações afirmativas partem da ideia de que é preciso reconhecer a existência das desigualdade para que se chegue na igualdade – e não atuar como se tal igualdade já existisse. O seu objetivo é sanar situações de desigualdade que são consideradas socialmente desfavoráveis, tanto para o indivíduo, quanto para o conjunto de população.

No início da década de 2000, algumas universidades públicas passaram a adotar as cotas raciais no vestibular, reservando uma parte das vagas para candidatos negros, pardos e indígenas. Além de colaborar para a eliminação de elementos persistentes das descriminações que se forjaram no passado e se recriam no presente, seu objetivo é também favorecer um ambiente acadêmico mais diverso. O maior envolvimento de negros e indígenas no campo das Ciências Sociais, por exemplo, irá colaborar para a emergência de novas formas de pensar e teorizar o país. Ainda que algumas pesquisas recentes já apontem para os impactos positivos da adoção das cotas – indicando um desempenho excepcional dos alunos cotistas –, seus resultados mais profundos serão sentidos em algumas décadas, com a maior inserção desses grupos em categorias profissionais onde os brancos são maioria absoluta. De caráter temporário, as cotas, como ações afirmativas que são, visam acelerar transformações para intervir num cenário marcado por uma desigualdade racial extrema.

Comentário do editor

Por outro lado, as ações afirmativas também sofrem críticas, principalmente pela forma como são eleitos os grupos sociais que serão beneficiados, e pelo modo como se opera a desigualdade dentro do país e como esta é interpretada. Isso traz privilégios a um grupo antes discriminado, contribuindo para a continuação da desigualdade entre cidadãos. Um exemplo dessa falha é a concessão de cotas raciais à pessoas negras cujas famílias possuem altos rendimentos financeiros.

Bibliografia:

GEMAA, Grupo de Estudos Multidisciplinares da Ação Afirmativa. Ações afirmativas. Ibase, 2011. Disponível em: http://gemaa.iesp.uerj.br/dados/o-que-sao-acoes-afirmativas.html

IBASE, Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas. Cotas raciais: por que sim? Rio de Janeiro, Ibase, 2008. Disponível em http://www.ibase.br/userimages/ibase_cotas_raciais_2.pdf

Arquivado em: Direito, Sociologia

fonte : infoescola

Lei dos três estados




Por Marcele Juliane Frossard de Araujo
Mestre em Ciências Sociais (PUC-Rio, 2015)
Graduada em Ciências Sociais (UERJ, 2012)

A lei dos três estados, formulada por Auguste Comte, é considerada como a lei fundamental de sua teoria e rege o modo de pensar da humanidade. Ela caracteriza-se por concepções da história humana e indica que elas passam por três fases: teológica, metafísica e positiva:

Em outros termos, o espírito humano, por sua natureza, emprega sucessivamente em cada uma de suas investigações três métodos de filosofar, cujo caráter é essencialmente diferente e mesmo radicalmente oposto: primeiro, o método teológico, em seguida, o método metafísico, e finalmente, o método positivo [...] (COMTE, 1825, pp.125-126).

O estado teológico, ou fictício, é concebido por Comte como aquele em que o espírito humano busca explicações para os fenômenos sociais e da natureza no sobrenatural, na ação divina, uma explicação que ainda não estaria voltada para o uso racional da mente humana, sendo por isso primitivo. Este estado subdivide-se em três fases, a saber: o fetichismo, o politeísmo e o monoteísmo. Comte entende que no fetichismo outros seres possuem vida semelhante a dos seres humanos, mas com poderes mais elevados, como os astros que são entendidos por ele como morada dos deuses (SOARES, p.46). O politeísmo onde a vontade dos deuses possuía controle absoluto sobre todas as coisas e, por último, o monoteísmo onde apenas um deus controlava todos os fenômenos.

O estado metafísico é a transição entre o teológico e o positivo. Os agentes sobrenaturais presentes no estado teológico dão lugar a forças abstratas personificadas,

“não predomina mais a pura imaginação, mas também não se está, ainda, sobre o domínio da verdadeira observação. No entanto, a razão começa a se preparar para o exercício verdadeiramente científico, como salienta Comte. Daí porque é necessário afastar a metafísica da discussão sobre a ciência: é necessário que ela deixe de existir para dar lugar ao conhecimento dito verdadeiramente científico”(BRANDÃO, 2011, p.83).

Por fim, o estado positivo é o estado científico e ocorre quando a observação dá lugar à imaginação e abstração presentes nos dois estados anteriores. Os fenômenos não dependem mais das vontades divinas ou do homem. O conhecimento científico encontrou sua perfeição e é o último estágio da evolução mental da razão humana.

Auguste Comte, francês, é o fundador do positivismo e um dos fundadores da sociologia. Para Comte a lei dos três estados só tem um sentido rigoroso quando combinada com a classificação das ciências (ARON, 2009, p. 67). Esta ordem de classificação das ciências nos explica como os graus de positividade da ciência em diferentes domínios.

As primeiras ciências positivas, de acordo com esta escala são a matemática, a física e a química e depois a biologia. Quanto mais simples e analítica a ciência, mais positiva. Mas esse grau de cientificidade combinado com a lei dos três estados tinha como intenção provar a positividade da política e a necessidade da sociologia, quando as ciências deixam de ser analíticas e passam a ser sintéticas. A sociologia é, portanto, a ciência do todo sobre o elemento, e por isso, a mais evoluída, porque seu objeto é o próprio homem. “A sociologia sintética sugere tal competência: ciência do todo histórico, não só determina o que foi e o que é, mas também o que será” (Idem.). Este determinismo é chamado pelo autor como realização da natureza humana. Porém, é necessário recordar que esta teoria sofreu muitas críticas.

Referências Bibliográficas:

ARON, R. As etapas do pensamento sociológico. Martins Fontes, 2009.

BRANDÃO, R. A postura do positivismo com relação às ciências humanas. Theoria - Revista Eletrônica de Filosofia. 2011.

COMTE, Auguste. “Cours de philosophie positive”: première leçon. In: La science sociale, 1825, p. 125-126.

COSTA, J. Cruz. Augusto Comte e as origens do Positivismo. Revista de História, São Paulo, v. 2, n. 5, p. 81-103, mar. 1951. ISSN 2316-9141.

SOARES, M.P. O positivismo no Brasil: 200 anos de Augusto Comte. Porto Alegre, 1998.

Arquivado em: Sociologia
fonte : infoerscola

Émile Durkheim


Émile Durkheim

Por Camila Betoni
Mestrado em Sociologia Política (UFSC, 2014)
Graduação em Ciências Sociais (UFSC, 2011)

Considerado por muitos como o grande fundador das Ciências Sociais, Émile Durkheim nasceu na França em 1858 e lá viveu até sua morte, em 1917. Diretamente influenciado pelo positivismo de Auguste Comte, dedicou sua trajetória intelectual a elaborar uma ciência que possibilitasse o entendimento dos comportamentos coletivos. Sua grande preocupação era explicar os elementos capazes de manter coesa a nova sociedade que ia se configurando após a Revolução Industrial e a Revolução Francesa.


Durkheim determina o fato social como objeto central de investigação deste novo campo científico. Entende-se o fato social como uma “coisa” que exerce força de coerção sobre os sujeitos, independente de sua vontade ou ação individual. O fato social se impõem na direção da sociedade para o indivíduo e se estabelece de forma a homogenizar e padronizar os comportamentos particulares, garantindo que sejam coletivos. Propositalmente, Durkheim chama o fato social de “coisa” para ressaltar que ele é um objeto no sentido científico, isso é, algo que pode ser observado, definido e explicado pelo cientista social.

Em seu importantíssimo estudo O Suicídio, publicado em 1897, Durkheim observa que as taxas de morte voluntária são contantes em diferentes períodos. O autor trata, portanto, o suicídio como um fenômeno que não age unicamente sob o indivíduo, mas cujas forças encontram-se atuantes em todo o corpo social. Logo, Durkheim passa a considerar o suicídio como um fato social que deve ser estudado e analisado por ele enquanto cientista social. Seguindo esse raciocínio, o suicídio, ainda que não possa ser considerado como algo benéfico, é considerado normal do ponto de vista sociológico. Durkheim nota que em momentos de crise econômica ou política, as taxas de suicídio elevam-se, fugindo dos padrões. Para ele, esse é um fenômeno anômico, isso é, que foge da normalidade.

Como um bom positivista, Émile Durkheim têm uma visão harmoniosa da sociedade e, por conseguinte, os desvios de padrões são sempre vistos como anomalias que podem ser corrigidas pela organização das forças sociais. Para Durkheim, as sociedades tradicionais – pré-modernas e pré-industriais – mantinham a sua coesão através da chamada solidariedade mecânica, uma vez em que as mudanças não eram comuns e os indivíduos não se diferenciavam muito entre si e entre as gerações e as atividades profissionais. Numa sociedade como a nossa, em que as mudanças são rápidas e as atividades de trabalhos são muito variadas, a unidade social é dada pelo que ele denomina solidariedade orgânica. Esse conceito traz a ideia de que a sociedade industrial mantêm-se em um funcionamento relativamente harmonioso, possibilitado pelo fato de que cada grupo ou indivíduo ocupa uma função diferente, cumprindo cada um seu papel na sociedade através da divisão social do trabalho.

O Estado aparece na obra de Durkheim como a instituição responsável por organizar essa divisão do trabalho, exercendo uma força capaz de garantir sua unidade. A educação, tema muito discutido pelo autor, também tem para ele um papel importante na função de preparar o indivíduo para integrar-se harmoniosamente no corpo social. A colaboração de Durkheim para o entendimento da sociedade é crucial. Entretanto, o excessivo apagamento do indivíduo – que só ganha valor quanto útil a sociedade – fez do pensamento durkheimiano alvo de muitas críticas posteriores.

Bibliografia:

ARON, Raymond. As etapas do pensamento sociológico. São Paulo: Martins Fontes, 2000.

DURKHEIM, Émile. Lições de Sociologia. São Paulo: Martins Fontes, 2002.

Arquivado em: Biografias, Sociologia

Sindicalismo




Por Camila Betoni
Mestrado em Sociologia Política (UFSC, 2014)
Graduação em Ciências Sociais (UFSC, 2011)

Faça os exercícios!
O sindicalismo é uma corrente que defende a importância de fortalecer os sindicatos para defender a classe trabalhadora. Antes dos sindicatos, já haviam outras formas de associação entre trabalhadores de um mesmo ramo ou ofício. As sociedades de socorro e auxílio mútuo tinham por objetivo prestar assistência aos trabalhadores e suas famílias em momentos de dificuldades.

Com o avanço da Revolução Industrial e o desenvolvimento do capitalismo, grandes massas são expulsas do campo e de seus antigos empregos, compondo uma nova classe social: o proletariado. Essa classe encontra condições de vida precárias nas novas cidades e não conta com nenhum tipo de proteção no âmbito do trabalho. As fábricas do século XIX eram um ambiente terrível para os trabalhadores, que cumpriam uma jornada, em média, de 14 a 16 horas diárias a troco de um salário miserável. As condições eram insalubres, havia muitos acidentes de trabalho e era comum o uso de mão de obra infantil (a partir do 6 anos de idade) e a aplicação de punições físicas aos trabalhadores considerados menos produtivos ou indisciplinados.

Nesse contexto, os sindicatos surgem pela necessidade de conquistar melhores condições de trabalho e salários mais justos. De início, os sindicatos foram duramente reprimidos e, até as últimas décadas do século XIX, as atividades sindicais eram proibidas na maioria dos países europeus. Com o passar do tempo, os sindicatos foram se institucionalizando, virando a principal ferramenta de negociação e diálogo entre patrões e empregados. Esse processo, em muitos casos, também caminhou para uma burocratização interna dos sindicatos, com a cooptação de seus líderes e, consequentemente um afastamento das bases. Algumas lideranças deixam de representar os interesses de suas categorias e usam o sindicato para proteger interesses próprios, do Estado, de partidos políticos e, por vezes, até mesmo de seus patrões.

Historicamente, a principal ferramenta de luta do sindicalismo tem sido a greve. A interrupção momentânea do trabalho mostra a importância dos trabalhadores para a geração de riqueza – ou para o próprio funcionamento da comunidade – e é um instrumento efetivo de pressão, responsável por uma série de conquistas no campo trabalhista, das quais desfrutamos ainda hoje. O papel do sindicato em um processo mais amplo de transformação social é objeto de grande debate dentro dos movimentos socialistas como um todo. Para alguns, o sindicado têm seus limites e está fadado a conquistas pontuais quando não alinhado com uma organização maior, como um partido, que direcione suas ações. Já os defensores do sindicalismo revolucionário, defendem a importância central dos sindicatos e pregam a ação direta – como as greves e as sabotagens – para a transformação radical da sociedade rumo a ruptura com o Estado e o capitalismo.

A primeira greve registrada no Brasil aconteceu no ano de 1858 e foi organizada pelos tipógrafos, que reivindicavam um aumento salarial. Os primeiros sindicatos, formados nessa época, tinham muita influência de imigrantes europeus anarquistas e comunistas. Durante o governo Vargas, na década de 30, algumas conquistas trabalhistas foram consolidadas (como a jornada de 8 horas), mas os sindicatos foram mantidos sob controle estrito do governo. Antes do golpe civil-militar de 1964, os sindicatos passavam por intensa atividade política, mas foram interrompidos e perseguidos pelas forças conservadoras no poder. Com o processo de redemocratização, na década de 80, surge o chamado novo sindicalismo, resultado das grandes mobilizações na região do ABC paulista.

Bibliografia:
BOTTOMORE, Tom (editor). Dicionário do pensamento marxista. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001

HACK, César Brognoli. Discurso midiático e greve dos trabalhadores do transporte coletivo em Florianópolis no ano de 2012. Trabalho de conclusão de curso em Ciências Sociais. UFSC, 2014.

Arquivado em: Política, Sociologia

fonte : infoescola

Preconceito




Por Luiz Antonio Guerra
Mestre em Sociologia (UnB, 2014)
Graduado em Ciência Política (UnB, 2010)

Preconceito é um conceito ou uma opinião previamente concebida. Em outras palavras, trata-se de um juízo feito sobre um indivíduo ou grupo social antes de qualquer experiência. O preconceito age a partir de uma simplificação, estabelecendo categorizações sociais através da criação de estereótipos. O preconceito funciona com base no princípio da generalização de todo o grupo alvo de preconceito: cada um dos seus membros, indistintamente, carrega as marcas estereotipadas que o estabelecem numa singularidade.

O preconceito está mais relacionado ao sistema de valores do sujeito do que às características de fato do seu objeto. Ou seja, o preconceito implica, naqueles que o utilizam, um componente afetivo e valorativo que não é determinado pela realidade do grupo alvo do preconceito. Por isso, o preconceito é resistente a toda informação contraditória e exerce uma função excludente de criação de uma identidade coletiva entre os que partilham o mesmo preconceito.

A ideia de preconceito foi utilizada por sociólogos norte-americanos para explicar o fenômeno do racismo, demonstrando a maneira com que o preconceito contra os negros nos Estados Unidos serviu para reforçar um sentimento de patriotismo baseado numa falsa ideia de superioridade branca.

Identidade, alteridade e preconceito
O preconceito está estreitamente ligado à noção de identidade por um lado, e por outro lado à alteridade, ou seja, a atitude frente ao outro, frente ao diferente.

Identidade é a forma com que nos vemos e somos vistos, ou seja, é o reconhecimento individual e social de cada um. Nós formamos nossa identidade a partir de várias experiências e elementos: geração, etnia, raça, gênero, orientação sexual, classe, religião, origem social, características físicas, gostos e preferências culturais, etc.

Na convivência em sociedade, porém, não apenas somos vistos, como também olhamos para o outro. A noção do outro, que se dá na interação social, é o que denominamos alteridade. A construção da identidade de um sujeito passa pelo reconhecimento da alteridade: a noção do “eu” depende da noção do “outro”, minha identidade só existe e é construída em relação aos outros.

Vivemos em constante contato com identidades culturais diversas. O preconceito com as diferentes identidades dos outros tem como consequência a intolerância e conflitos sociais.

Preconceito e intolerância
O preconceito é expresso de diversas maneiras em atitudes de intolerância, discriminação e ódio. Algumas das expressões de preconceito mais comuns no Brasil são o racismo, machismo, homofobia, transfobia e xenofobia. As reações preconceituosas aparecem tanto de maneira disfarçada – por meio de insultos verbais ou gestuais, calúnias, antipatia e ironias – quanto de maneira explícita – através de perseguição, violência e homicídios. Atualmente, vemos discursos de ódio se espalhar nas redes sociais digitais.

O preconceito também está relacionado com o etnocentrismo (a crença na superioridade de uma cultura sobre outras) que, por sua vez, esteve e está na raiz de conflitos de grande magnitude, como os casos de terrorismo, de colonização e de guerra entre países.

Com o fim da Segunda Guerra Mundial e a derrota da Alemanha nazista, houve uma maior preocupação entre os países europeus em conter a disseminação de formas de preconceito e intolerância, resultando em diversas legislações nacionais e internacionais que visam proteger e garantir os direitos humanos. No Brasil, a Constituição de 1988 e uma série de leis posteriores buscam valorizar a diversidade cultural, garantir os direitos fundamentais e criminalizar atos de preconceito.

Referência bibliográfica:

BOUDON, Raymond (org.). Dicionário de sociologia. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1990.

Arquivado em: Filosofia, Sociologia

fonte : infoescola

Democracia participativa




Por Luiz Antonio Guerra
Mestre em Sociologia (UnB, 2014)
Graduado em Ciência Política (UnB, 2010)

A democracia surgiu na Grécia antiga, como uma forma de governo fundada na participação de todos os cidadãos em assembleia com o objetivo de tomar conjuntamente as decisões governamentais. Na sua etimologia, a palavra democracia quer dizer literalmente “governo do povo”, mas o seu significado é complexo e tem se transformado desde a época dos gregos. Hoje, a democracia se tornou o regime político dominante na maioria dos países ocidentais. Acompanhe abaixo as diferenças entre a democracia representativa e a democracia participativa.

A democracia representativa
Nossos contemporâneos não compreendem a democracia da mesma maneira que os antigos gregos. Em sociedades complexas, é praticamente impossível um modelo de democracia direta tal como era praticado na Grécia antiga. A democracia dos nossos dias é considerada indireta, porque as decisões não são tomadas por cada um de nós, mas sim por um conjunto de representantes que elegemos, direta ou indiretamente. Periodicamente, no sistema democrático brasileiro, nós votamos em representantes executivos em diversos níveis (presidente, governador e prefeito) e também legislativos (senadores, deputados e vereadores), para que tomem as decisões políticas, durante seu mandato que em geral duram quatro anos (oito anos no caso dos senadores).

No pensamento político moderno, a ideia de representação é central à democracia, pois seria através dos representantes eleitos que se faria valer a soberania popular. Podemos afirmar que para os defensores da democracia representativa a principal forma de participação política dos cidadãos estaria no voto, nas eleições, nas escolhas dos representantes que irão tomar as decisões por todos nós. Nesse sentido, cada vez mais a democracia tem sido percebida como um conjunto de instituições e práticas representativas e, por sua vez, a participação política tem sido reduzida a processos de escolhas de representantes e de tomada indireta de decisões coletivas.

Entretanto, a democracia representativa tal qual tem se desenvolvido nos países ocidentais tem sido alvo de uma série de críticas, que apontam seu favorecimento a uma minoria detentora do poder econômico. Abundam os casos de corrupção perpetrados por representantes que pouco se preocupam com o bem-estar dos cidadãos. Um dos “remédios” aos males do sistema político representativo estaria na realização de uma democracia mais participativa.

A democracia participativa
Também chamada de democracia deliberativa ou ativista, a ideia de democracia participativa parte do pressuposto de que a participação política é o principal valor democrático – e não pode ser completamente substituída pela representação. O ideal participativo supõe cidadãos atentos ao desenvolvimento da coisa pública, informados dos acontecimentos políticos, capazes de escolher entre as diversas alternativas políticas e interessados em formas diretas ou indiretas de participação.

Existem diversas maneiras de participação política nos regimes democráticos contemporâneos para além do voto, através de associações, sindicatos, partidos políticos, movimentos sociais e organizações não governamentais. Da mesma maneira, atividades políticas incluem a participação em manifestações, marchas e protestos, a pressão exercida sobre um dirigente político, a difusão de informações, além da própria discussão de acontecimentos políticos. Existem ainda diversos mecanismos de intervenção direta dos cidadãos nos procedimentos de tomada de decisão e de controle do exercício do poder, como por exemplo: consultas populares, referendos e plebiscitos, leis de iniciativa popular, assembleias, fóruns e audiências públicas, conselhos e órgãos de controle social, etc. Através de atitudes, instituições e mecanismos como esses, os defensores da democracia participativa buscam dar maior legitimidade para o sistema democrático através da descentralização da tomada de decisões e da participação popular.

Bibliografia:

BOBBIO, Norberto. Dicionário de Política. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1998.

DAHL, Robert A. A democracia e seus críticos. São Paulo: Editora Martins Fontes, 2012.

Arquivado em: Política
fonte : infoescola

Democracia




Por Luiz Antonio Guerra
Mestre em Sociologia (UnB, 2014)
Graduado em Ciência Política (UnB, 2010)
Democracia é o termo que caracteriza o regime político contemporâneo da maioria dos países ocidentais. Trata-se de um conceito tão importante quanto complexo, cujo significado atual se originou de várias fontes históricas e se desenvolveu ao longo de milhares de anos. O termo pode ser utilizado para designar tanto um ideal quanto regimes políticos reais que estão consideravelmente aquém daquele ideal. Uma das formas para compreender o seu significado é olhar para a maneira com que o conceito de democracia se transformou e se desenvolveu historicamente.

A democracia na Grécia Antiga
A democracia surgiu nas cidades-estados da Grécia antiga, durante o primeiro milênio antes de Cristo, e tomou sua forma clássica no auge político da cidade de Atenas. Sua etimologia provém dos termos “demo” (povo) e “cracia” (governo), significando literalmente “o governo do povo”. De acordo com a classificação das três formas de governo feita por Aristóteles na sua obra “Política”, a democracia (governo de muitos) se distingue da monarquia (governo de um só) e da aristocracia (governo dos nobres).

A clássica democracia das cidades antigas gregas estava fundada na participação de todos os cidadãos em assembleia com o objetivo de tomar conjuntamente as decisões governamentais. Apesar de ter existido em um pequeno território e entre um número reduzido de pessoas (apenas os homens livres eram considerados cidadãos, excluindo mulheres e escravos), a experiência da democracia grega adquiriu grande importância ao tornar possível um sistema político no qual o povo é soberano e tem o direito a se governar, contando com recursos e instituições para fazê-lo. Essa ideia permaneceu como o núcleo do ideal democrático moderno e continua a moldar as instituições e práticas democráticas atuais. A prática política democrática gestada na Grécia se refletiu nas instituições políticas da República Romana, que se expandiu para grande parte da Europa e do Mediterrâneo.


A democracia contemporânea
Na era moderna, a prática da democracia foi transferida da pequena cidade-estado para a escala muito maior do Estado nacional, o que implicou o surgimento de um conjunto novo de instituições políticas. Os limites e as possibilidades das instituições democráticas passaram a ser pensados no nível do funcionamento de sociedades complexas, dotadas de grandes governos, impessoais e indiretos. Tornou-se impossível o exercício direto da democracia pelos cidadãos como era realizado nas pequenas cidades-estados gregas.

Foi-se afirmando no pensamento político moderno a ideia de que a única forma de democracia possível era um governo representativo. Na concepção moderna de democracia, o ato de governar e legislar é delegado a um grupo restrito de representantes eleitos por períodos limitados, direta ou indiretamente, pelos cidadãos. Ou seja, a soberania do povo se dá por meio dos representantes que pelo povo são eleitos. As eleições e decisões legislativas geralmente são tomadas por maioria de votos, de forma que as políticas reflitam, pelo menos até certo ponto, a vontade e os interesses dos cidadãos. Para evitar a concentração e o abuso do poder, as principais funções legislativas, executivas e judiciais do governo estão separadas, de modo a se equilibrarem.



Nesse sentido, a liberdade individual e a igualdade de condições são consideradas os principais valores democráticos e os princípios que sustentam essa forma de governo. No pensamento político moderno, a democracia é vista em oposição às formas absolutistas e ditatoriais de governo. O estado democrático é concebido com o objetivo de garantir certos direitos fundamentais à cidadania, geralmente divididos em direitos civis, políticos e sociais. Entre os direitos civis estão a liberdade de expressão, de imprensa, de associação e de reunião e proteção contra a prisão arbitrária. Os direitos de votar e de ser eleito para um cargo no governo são exemplos de direitos políticos. Já os direitos sociais são aqueles relacionados à educação, saúde, alimentação, moradia, transporte, segurança, lazer, etc. Nos últimos séculos, a luta por democracia nas nações modernas tem se dado no âmbito da conquista, garantia, universalização e ampliação dos direitos civis, políticos e sociais.

No pensamento político e nos regimes contemporâneos, pensa-se a democracia menos em termos ideológicos e mais no seu sentido formal, ou seja, como um conjunto de instituições, direitos e práticas que garantem um determinado processo para a tomada de decisões coletivas. Assim, quando hoje nós falamos em democracia, em geral nos referimos a algumas “regras do jogo político”.

Listamos a seguir alguns desses procedimentos que caracterizam um sistema democrático atual:

as instituições políticas responsáveis pelas funções legislativas e executivas devem ser compostas em sua maioria por membros direta ou indiretamente eleitos pelo conjunto dos cidadãos e alternados periodicamente;
o voto deve ser universal, ou seja, têm direito ao voto todos os cidadãos maiores de idade, sem distinção de sexo, de raça ou de religião;
todos os votos têm o mesmo peso e os eleitores são livres para exercer o seu direito segundo a sua própria opinião, frente a uma disputa livre, honesta e pacífica entre partidos políticos que pleiteiam os cargos representativos;
vencem as eleições os partidos e/ou candidatos que atingirem a maioria numérica dos votos (ainda que possam ser estabelecidos diferentes critérios para se determinar a maioria);
as decisões tomadas pela maioria não podem ameaçar os direitos básicos da minoria.
No âmbito dessa noção formal de democracia, foram cunhadas diversas tipologias para caracterizar as diferentes formas de procedimentos democráticos desenvolvidos pelos países ocidentais. Por exemplo, podemos discernir entre sistemas presidencialistas e parlamentaristas, dependendo da relação que é estabelecida entre os poderes executivo e legislativo. Outro exemplo de tipologia é a que leva em consideração os partidos políticos, diferenciando sistemas bipartidários (onde dominam apenas dois partidos, como nos Estados Unidos) e pluripartidários (onde três ou mais partidos disputam o poder, como no Brasil).

No mundo ocidental em geral considera-se a democracia representativa como o regime político mais eficaz para promover maior liberdade e direitos para os cidadãos com o mínimo de abuso do poder político. Entretanto, existe uma série de críticas à democracia representativa, formal e indireta tal qual ela se desenvolveu nos países ocidentais, acusando-a principalmente de favorecer uma minoria detentora do poder econômico. Os críticos à democracia representativa consideram que houve um abandono real dos ideais democráticos, nas mãos de representantes que não se preocupam de fato com a coisa pública; argumentam ainda a impossibilidade de manter um sistema autenticamente democrático frente à influência crescente da riqueza, à enorme desigualdade social, à irrefreada corrupção, à escalada da violência e à disseminação de ódio, preconceito e guerras.


Bibliografia:

BOBBIO, Norberto. Dicionário de Política. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1998.

BUNNIN, Nicholas e YU, Jiyuan. The Blackwell Dictionary of Western Philosophy. Blackwell publishing, 2004.

DAHL, Robert A. A democracia e seus críticos. São Paulo: Editora Martins Fontes, 2012.

Arquivado em: Filosofia, Política, Sociologia
fonte : infoescola

Multiculturalismo




Por Camila Betoni
Mestrado em Sociologia Política (UFSC, 2014)
Graduação em Ciências Sociais (UFSC, 2011)

Entende-se por multiculturalismo tanto os estudos acadêmicos quanto as políticas institucionais que se desenvolvem em torno das questões trazidas pela emergência das sociedades multiculturais. Uma sociedade multicultural é aquela que, em um mesmo território, abriga povos de origens culturais distintas entre si. As relações entre esses grupos podem ser aceitação e tolerância ou de conflito e rejeição. Isso vai depender da história da sociedade em questão, das políticas públicas propostas pelo Estado e, principalmente, do modo específico como a cultura dominante do território é imposta ou se impõem para todas as outras. A convivência entre culturas diferentes não é uma questão nova, mas que se se intensificou nos últimos anos devido a acontecimentos marcantes.

Não é possível entender o multiculturalismo fora do contexto do fenômeno da globalização. O desenvolvimento acelerado dos meios de transporte e das tecnologias de comunicação aproximaram diferentes regiões do mundo, criando redes industriais e financeiras complexas e uma economia multinacional, interdependente e insubmissa às fronteiras nacionais. Com o fim da Guerra Fria, os Estados Unidos passam a hegemonizar culturalmente todo o planeta. Seus produtos, filmes, músicas e formas de ver as coisas se espalham globalmente gerando o que se chama de “americanização” do mundo. Frente a esse fenômeno de hegemonização dos padrões culturais globais, as culturas tradicionais se fortaleceram, reagindo contra a massificação dos modos de ser. Por outro lado, apesar da massificação, vemos que essas comunidades culturais locais são capazes de se apropriar de partes da cultura americana, transformando-as em uma algo novo e diferente do original. No Brasil, o funk e rap são um exemplo claro dessa possibilidade.

Outros processos importantes que influenciam no surgimento das sociedades multiculturais, são as lutas pela independência que ocorrem nas colônias europeias da segunda metade do século XX, especialmente na África e na Ásia. O cenário pós-colonizal gera um processo de resgate das culturas tradicionais locais e, ao mesmo tempo, pela ligação histórica, desencadeia um movimento migratório para os países colonizadores. Também os conflitos de ordem étnica, religiosa e política, além das deficiências econômicas, são fatores que aumentam o fluxo migratório. Incentivado por tudo isso e pelo próprio cenário criado pela globalização, esse movimento migratório transforma de modo profundo as nações que receberam os imigrantes, colocando em cheque a capacidade dos estados modernos de gerirem sua nova configuração multicultural.

Alguns países democráticos têm buscado promover a aceitação e incorporação de culturas diferentes em seus territórios, valorizando a possibilidade de se constituírem enquanto nações pluriétnicas. No entanto, em outros países, a negação de direitos sociais e a perseguição de minorias culturais são práticas oficiais. Muitas vezes, ainda que exista uma política multiculturalista oficial, a perseguição é praticada por pessoas comuns, inflamadas por um sentimento de nacionalismo e rejeição ao outro. Os ataques violentos organizados por civis aos abrigos de refugiados de origem árabe na Alemanha são um exemplo disso. O multiculturalismo emerge a partir das reivindicações de minorias étnicas que sofrem de opressão histórica em seus territórios, como os negros e as populações indígenas por todo continente americano, incluindo o Brasil. O debate em torno desse tema é muito importante e traz à tona a forma como lidamos, enquanto sociedade, com as diferenças étnicas, culturais e religiosas que nos cercam.

Bibliografia:
ZORZI, José Augusto. Estudos culturais e multiculturalismo: uma perspectiva das relações entre campos de estudo em Stuart Hall. Trabalho de conclusão de curso para obtenção de Licenciatura em História pela UFRG, 2012

Arquivado em: Cultura, Sociologia
fonte : infoescola

Consciência coletiva




Por Marcele Juliane Frossard de Araujo
Mestre em Ciências Sociais (PUC-Rio, 2015)
Graduada em Ciências Sociais (UERJ, 2012)

O conceito de consciência coletiva foi criado pelo sociólogo francês Émile Durkheim e é definido como o conjunto de características e conhecimentos comuns de uma sociedade, que faz com que os indivíduos pensem e ajam de forma minimamente semelhante. Corresponde às normas e às práticas, aos códigos culturais, como a etiqueta, a moral e as representações coletivas.

Para Durkheim, um funcionalista, o indivíduo, em muitas de suas práticas, é influenciado pela sociedade em que está inserido. Logo, o indivíduo e suas ações são fortemente influenciada pela consciência individual e coletiva. Mas os limites entre ambas não são muito claros, pois mesmo decisões consideradas extremamente individuais, como a de tirar a própria vida, são influenciadas pelas condições sociais.

Isto se torna mais fácil de compreender quando pensamos nos aspectos individuais de compreensão do mundo, ou seja, as palavras, a língua, as categorias, as representações o conhecimento do mundo só acontece através de um mínimo de comunhão a respeito de aspectos básicos para que os indivíduos tenham algum grau de certeza que quando falam de algo o outro é capaz de compreender sobre o que fala.

Por exemplo, o processo que cria novas ordens morais, formadas a partir do entusiasmo coletivo, é contrariado por processos em que esse entusiasmo diminuiu, como crises sociais profundas. Em seu livro “Suicídio” o autor aborda possíveis causas para o aumento do suicídio e as identifica, suicídio anômico, como a falta de um encaixe entre as representações individuais e coletivas.

Segundo Durkheim:

“O conjunto das crenças e dos sentimentos comuns à média dos membros de uma mesma sociedade forma um sistema determinado que tem vida própria; podemos chamá-lo de consciência coletiva ou comum. Sem dúvida, ela não tem por substrato um órgão único; ela é, por definição, difusa em toda a extensão da sociedade, mas tem, ainda assim, características específicas que fazem dela uma realidade distinta. De fato ela é independente das condições particulares em que os indivíduos se encontram: eles passam, ela permanece. (...) Ela é, pois, bem diferente das consciências particulares, conquanto só seja realizada nos indivíduos. Ela é o tipo psíquico da sociedade, tipo que tem suas propriedades, suas condições de existência, seu modo de desenvolvimento, do mesmo modo que os tipos individuais, muito embora de outra maneira”. (DURKHEIM, 2010, p. 50)

A consciência coletiva está localizada no nível da estrutura, é sociológica e psicológica, e constitui a cultura e o senso comum dos indivíduos membros de uma sociedade (LACAPRA, 2001, p.84). Ao contrário do que “consciência” pode fazer supor, enquanto dimensão consciente do psicológico, a consciência coletiva é inconsciente e consciente. É importante atentar para a tradição de pensamento em que este conceito se inscreve, referenciando-o à tradição francesa, em que Auguste Comte definiu o conceito de consenso e Jean Jacques Rousseau o de vontade geral. Outro intelectual importante na definição de Durkheim é Sigmund Freud e o conceito de superego.

Outro aspecto a ser ressaltado é que o conceito foi desenvolvido para refletir sobre punição, ou melhor, sobre sistemas de justiça e retribuição. Como ele trata do respeito ou não às normas é muito comum encontrar o conceito em pesquisas sobre crime e religião. Sendo assim, o conceito de consciência coletiva está fortemente relacionado com o de anomia e imagina algum grau de normalidade para as diferentes sociedades.

Referências Bibliográficas:

DURKHEIM, E. Da divisão do trabalho social. WMF Martins Fontes, São Paulo, 2010.

LACAPRA, D. Emile Durkheim: sociologist and philosopher. The Davies Group, Publishers, Colorado, USA, 2001.

Arquivado em: Psicologia, Sociologia
fonte : infoescola

Estratificação social




Por Marcele Juliane Frossard de Araujo
Mestre em Ciências Sociais (PUC-Rio, 2015)
Graduada em Ciências Sociais (UERJ, 2012)

Estratificação social nomeia um campo de estudos dedicado a classificar indivíduos e grupos sociais de acordo com status sociais e poder econômico. De certa forma, esses estudos buscam compreender como uma sociedade se organiza hierarquicamente. O que distingue àqueles que têm mais poder dos que não tem poder algum? Ou, o que faz com que alguns tenham muita riqueza e outros sejam miseráveis? Essas perguntas são questionamentos referentes à estratificação social.

Dois autores da sociologia são marcos referenciais desses estudos, são eles Karl Marx e Max Weber. Embora o primeiro autor esteja sempre associado aos estudos econômicos ele também se dedicou à crítica da economia política e, consequentemente, aos estudos sobre os aspectos sociais da economia e de seus efeitos. O segundo busca explicar as posições de classe para além de seu caráter econômico, associando-o aos aspectos simbólicos, como prestígio. Marx chama as posições sociais de classe, enquanto Weber as nomeia enquanto estamentos.

A distribuição desigual de recursos, sejam eles riqueza, status, prestígio social ou poder, definem uma sociedade estratificada. O status social de uma pessoa pode, portanto, ser definido por diferentes fatores, que vão desde o gênero até a riqueza possuída. O cruzamento entre esses fatores, variando entre autores e campos de estudos, posicionam os indivíduos em suas posições sociais.

Os estudos sobre estratificação social são importantes porque permitem compreender como o poder, a riqueza e o status são distribuídos em uma dada sociedade. A partir disso, é possível pensar as desigualdades para além dos fatores econômicos ou da concentração de renda, refinando o conhecimento de conflitos e problemas que se relacionam mais com aspectos simbólicos que econômicos (BOURDIEU, 2008)

Comumente os livros didáticos de história trazem análises sobre aspectos sociais que estão diretamente ligados à estratificação social em diferentes civilizações e momentos históricos. Quando se fala sobre a divisão de uma sociedade como a medieval em três estamentos, servos, nobres e clero, está-se a falar sobre estratificação social. Como se vê o status pode ser atribuído ou adquirido; o segundo também é chamado de meritocracia. Mas, também se nota que essas análises envolvem outras perguntas que não somente a classificação e posicionamento social: é possível mudar de classe, estamento ou posição? Depende da sociedade, da rigidez de suas regras sociais e culturais, das oportunidades econômicas bem como muitos outros fatores.

Por isso, os estudos sobre mobilidade de classe analisam trajetórias de famílias, indivíduos e grupos sociais para compreender se existe mobilidade entre as gerações. Neste caso a estratificação social cruza-se com outro tipo de análise para refinar o conhecimento sobre posições sociais e oportunidades de mudança. Por exemplo, quatro aspectos estão diretamente relacionados com a mudança de classe intergeracional: educação, ocupação profissional, área de residência, gênero e estado civil (HOLLINGSHEAD, 1975).

Logo, estratificação é um tema importante para discutir desigualdades sociais, concentração de renda, status social, mecanismos de distribuição de renda e políticas públicas em geral para redução de desigualdades.

Referências bibliográficas:

BOURDIEU, P. A distinção – crítica social do julgamento. Zouk, Porto Alegre, 2008.

HOLLINGSHEAD, A. B. Four Factor Index of Social Status (Non-published work, 1975). Yale Journal of Sociology Volume 8 Fall, 2011.

BREEN, RICHARD e ROTTMAN, DAVID B., Class Stratification – A Comparative Perspective, Londres, HarvesterWheatsheaf, 1995

Arquivado em: Sociologia
infoescola